O maior fanático por futebol que eu conheci
Meu amigo Luiz Fernando Bindi faleceu numa terça-feira, 22 de julho de 2008, aos 35 anos. A dor foi tão grande quanto o respeito que eu tinha por ele. Bindi foi entrevistado por mim pela primeira vez para falar do site que tinha acabado de criar, o www.distintivos.com.br. Ele exibia, com orgulho, os álbuns com os distintivos que vinha guardando desde a infância. Contou a história do dia em que um avião da TAM caiu perto de sua casa e ele ligou desesperado para a mãe. Primeiro para saber se ela estava bem, e depois para se certificar de que a coleção estava salva.
Numa nova participação no Fanáticos por Futebol, eu o convidei para fazer um quadro no programa. Criamos o “Desafio a Luiz Fernando Bindi”. Em todas as suas participações, Luiz Fernando Bindi dava um show de conhecimento. Não só de futebol, mas de geografia e história, duas outras paixões.
Dizia ser palmeirense e brasileiro, nessa ordem. Era apaixonado também por mapas e por seus cães. Sobre essa paixão pelo futebol, Bindi repetia sempre: “Assisto todos os jogos que consigo, da Premier League até a 4ª divisão da Itália, passando por futebol do interior de São Paulo e do interior da Indonésia”.
Aí veio o quadro “Futebol é uma Caixinha de Surpresas” e a realização de vários sonhos. Num e-mail que me enviou dois ou três meses antes de sua morte, Bindi, geógrafo de formação, me contou que nunca esteve tão realizado.
Lançou no ano passado o livro “Futebol é uma Caixinha de Surpresas”. E já estava começando o segundo, com histórias curiosas de 200 escudos. Em 2007, comentou um jogo do Juventus, sua segunda paixão, no microfone da Bandeirantes. A partida foi na Rua Javari, ali na Mooca, bairro em que Bindi nasceu e sempre morou. O convite foi feito pelo coordenador de esportes, Sérgio Patrick.
Além de manter seu próprio blog, escrevia para o site “Trivela”, era colunista do blog de Vitor Birner, da CBN, e do site de Milton Neves. Participava do programa Beting & Beting, na BandSports, e escrevia para o Jornal do Grande ABCD. Também era comentarista da rádio 105.
Bindi não ia sozinho a esses jogos, não. Era sempre acompanhado pela mulher, Eliana Gonçalves Bindi, apaixonada pelas loucuras do marido. Ia sem problemas a São Vicente ou Indaiatuba para ver jogos da quarta, quinta divisão.
Leia o que Luiz Fernando Bindi escreveu em seu blog no dia 8 de maio de 2008, dia da final do seu Palmeiras contra a Ponte Preta:
"De repente, depois de muito tempo de luta, fui convidado para ser comentarista de rádio, um sonho de infância. Quando recebi a escala do meu jogo de estréia, era Palmeiras x Náutico. Todos me falaram: "se segura, hein", "não vai bajular o Palmeiras", "não critica muito pra parecer imparcial", enfim. Eram muitos os alertas.
Quando entrei no Palestra Itália por alamedas em respirei quase 30 anos da minha vida, me senti em casa. Lembranças da minha avó Wally, do meu tio Hernâni, dos meus pais. Nesse estádio, vi vitórias gloriosas como a Libertadores de 99 e o Paulista de 96. Vi tragédias italianas, como a derrota para o XV de Jaú em 85 e para o Vasco na Mercosul.
Subi os 4 andares até a cabine da rádio a pé. Entrei, coloquei os fones. E esqueci para que time eu torci um dia. E assim tem sido, de uma forma deliciosamente fácil. Já fiz vários jogos do Palmeiras e tratei o time de Palestra Itália da mesma forma que tratei os outros times. Nem mais, nem menos.
Hoje, fiz Palmeiras 5 x 0 Ponte Preta, minha primeira final. Não senti simplesmente nada, como torcedor. Nada. Estive tranqüilo durante toda a partida. Felizmente, para mim, sou mais jornalista que palmeirense. Amo mais o futebol que o Palmeiras. Como diz meu mestre e amigo (não necessariamente nessa ordem) Mauro Beting, sou um palmeirense jornalista, não um jornalista palmeirense.
De repente, lá pelo fim do jogo, o técnico Wanderley Luxemburgo chama o goleiro Diego Cavalieri, reserva de Marcos. E substitui aquele que considero o melhor goleiro do Brasil em atividade por aquele que considero o futuro melhor goleiro do Brasil.
Quando vi Marcão saindo de campo, em respeito aos ouvintes, afastei o fone do ouvido.
E chorei."
Ao perder amigos como o Bindi é que a gente se dá conta de que a vida também é uma caixinha de surpresas.
Marcelo Duarte
<< Retornar |